Bruna… Mulher da vida – Capítulo III

Depois da missa de sétimo dia, Bruna e Clarisse foram convidadas da irmã de Jerónimo. Senhora Dona Zenilda, era realmente uma Senhora. Sabia ser, estar e fazer, muito embora este último atributo não fosse posto em prática muitas vezes, pois tinha imensos serviçais: uma cozinheira, uma arrumadeira, uma engomadeira, jardineiro, um mordomo e um motorista. O palacete, em pleno coração de Sintra, era morada dela e do marido, para além dos criados de dentro. Os outros iam embora para as suas casas por volta das vinte e duas horas e no dia seguinte tinham de estar ao serviço às sete em ponto. Nunca se ouviam queixas sobre os patrões. Eram exigentes? Evidentemente. Mas não era para isso que lhes pagavam? Este conformismo decorria da possibilidade que os Senhores tinham facultado aos filhos de todos aqueles que os serviam: estudar! Isso sim, era uma dádiva de Deus. Até costumavam chamar Santa à patroa. Na época, a escola não era coisa para todos, a bem da verdade, era coisa para muito poucos e este ato de generosidade por parte dos patrões era sempre motivo para exaltação das qualidades dos Senhores e a razão de fecharem os olhos a algum defeito que pudesse surgir.

O chá foi servido pontualmente às cinco horas da tarde e a anfitriã esteve no seu melhor, aliás como era seu apanágio. Não gostava de Clarisse pois acreditava verdadeiramente que as pessoas de origem humilde nunca seriam tão cultas, interessantes ou divertidas. Para a Senhora Dona Zenilda, os pobres, por lavados que estivessem, exalavam sempre o cheiro da sua triste e infeliz condição. Ela era uma boa Senhora. A sua educação é que a levou a pensar desta forma. “Cada macaco no seu galho” era a sua frase de eleição, nunca imaginando que ela própria lhe fazia justiça… e como!

O seu marido, Engenheiro Angélico de Almeida Brandão, era tudo aquilo que se poderia esperar de um Senhor: amável, cavalheiro, altruísta, empenhado, trabalhador, empreendedor, e muito, muito putanheiro. Dizia a si mesmo, em jeito de absolvição, que alguém tinha de lhe dar o que a sua Senhora não dava. Quem os via juntos poderia jurar que formavam um casal perfeito. Envoltos numa aparente cumplicidade, eram admirados pela comunidade local quando caminhavam de braço dado para a missa ou, quando sentados na pastelaria, bebericavam, conversavam e sorriam olhando-se nos olhos com demora. Ninguém poderia supor o que se passava entre as quatro paredes, ou melhor, o que não se passava. Pura e simplesmente não tinham qualquer tipo de intimidade há mais de seis anos. Foi um diagnóstico médico que despoletou esta situação: Zenida era “seca”, ou seja, não podia conceber. Se primeiramente se sentiu um lixo, depois assumiu a sua incapacidade como mais um desígnio de Deus. Não podendo ter filhos, então também não existia um motivo para ter relações com o marido. Arranjou a desculpa ideal pois até então, só o dever da procriação a levava a fazê-lo. Não existindo esse fim, seria sensato, parar com os meios. O marido compreendeu e aceitou com ligeireza esta nova forma de estar no casamento, pois, não o confessava nem ao prior, mas qualquer puta da beira da estrada era mais entusiasmante que a sua mulher. Não que fosse feia muito pelo contrário. Era alta e esguia, tinha a pele clara, macia e perfumada. O seu nariz muito fino e pequenino, ligeiramente arrebitado, dava à sua cara oval uma sofisticação mordaz. Os seios eram redondos, tão redondos e duros que pareciam querer rebentar os apertados soutiens de cós alto que insistia em vestir quando se levantava de manhã, e a sua cintura, era de tal forma vincada, que sugeria uma anca maior do que era na verdade. O seu cabelo, louro muito claro, tinha caracóis brilhantes e bem definidos que ela teimava em domar. Um cabelo que ela nunca soltava. O seu peito o marido nunca sentira e da sua pele, apenas o toque das mãos. Quando se deitavam no leito ela era fria e inerte. Às vezes parecia ter medo de que ele se mexesse demais ou lhe mexesse demais. Os limites foram impostos logo na primeira vez. Não que houvesse troca de palavras sobre o assunto, mas os sinais que ela dava eram inequívocos. Se a mão dele tentava desabotoar-lhe a farta, opaca e grossa camisa de noite, ela, ainda que gentilmente, retirava-a de si. Com a sua mão, pegava docemente na dele, levava-a a sua boca e beijava-a com ternura conduzindo-a muito devagar ao lugar de onde nunca deveria ter saído: longe do seu corpo. Contrastando com esta falta de desejo, durante o dia pela casa ou na rua onde passeavam, era carinhosa com o seu marido e em todas as situações rotineiras, enchia-o de carinhos e afetos revelados num afagar de cabelo, num roçar de perna por baixo da mesa ou num beijo na boca. Sim, esta mulher beijava ardentemente, melhor que qualquer amante apaixonada, mas sempre fora da cama. Nos primeiros tempos de casamento ele esforçara-se, mas viria a perder a paciência algum tempo depois. A ausência da sua companheira assustava-o. Quando estavam sós apenas o seu corpo era presente. Onde estaria a sua alma?  Por onde pairavam os seus pensamentos? Isto afastava-o, levando-o a cair nos braços de várias outras mulheres de forma a obter o prazer desejado, fazendo um esforço bem menor: o de pagar. Era tão mais simples e significativamente menos trabalhoso. Quando descobriu que nem sequer tinha de pagar, tudo se facilitou. Dentro da própria casa, descobriu a parceira ideal para os seus momentos de leviandade.

A criada de dentro, de seu nome Joana. Tinha vinte e dois anos quando foi trabalhar para aquela casa, porém, já não tinha os sinais de candura natural da sua idade. Servia desde os treze anos e aos quinze pode perceber o poder de ter nascido mulher. A tia que a conhecia desde o berço, dizia que ela tinha o demónio debaixo da saia. E foi a saia que Joana levantou, em jeito de desafio, ao filho dos primeiros patrões. Ele, com dezasseis anos, nem pensou duas vezes quando ao entrar no quarto se deparou com a jovem criada sentada na cómoda, apoiando um pé na beira da cama. Tinha o uniforme vestido, mas prendia a ponta da saia entre os seios, dando a conhecer todos os seus desejos e vontades. Tinha o corpo de menina, mas o olhar e a atitude de uma mulher de trinta anos. Era o desejo e o ardor que lhe incendiavam os olhos e impulsionavam o corpo a contorcer-se. Estavam sozinhos em casa e a oportunidade pareceu tão adequada como as dezenas de vezes em que, nos três anos seguintes, repetiram a cena. Vezes e vezes sem conta, que terminaram com o casamento do menino com uma menina pura e de boas famílias como ele. Joana ficou sozinha, mas por pouco tempo. Seduziu o pai do patrão, o Sr. Marques, um homem de sessenta e seis anos, que em várias ocasiões já tinha apanhado a olhar para o seu decote. Foi assim que Joana descobriu que era mais rentável colocar o seu corpo à disposição dos desejos de alguém mais velho, pois estes tinham vontade e poder de recompensar quem sabia agradar-lhes. Um mês depois do primeiro encontro foi gratificada com um terço de prata.  Muitas mais prendas foi recebendo durante os quatro anos que se manteve firme na sua posição de criada amante do Sr. Marques. O que mais abominava era quando ele se lembrava de lhe dar flores. Perguntava-se que utilidade tinha um ramo de vinte cinco rosas. Antes lhe oferecesse ele o dinheiro ou lhe comprasse um anel, mesmo que de vidro. Pelo menos poderia enfeitar-se.

Depois do seu amante ficar acamado, devido a uma trombose, o filho do Sr. Marques, que já desconfiava de algum envolvimento entre o pai e a criada, decidiu dispensá-la para a casa de uns parentes em Lisboa. A vida permitiu assim a Joana entrar na casa e nas vidas dos Senhores Almeida Brandão. Fulana vivida, logo sentiu algum descontentamento matinal do Senhor em relação à Senhora e vislumbrou uma brecha para invadir aquele casamento. Queria apenas uma chance para obter algumas regalias. Se conseguisse entrar na cama do patrão, sabia que alcançaria tudo o que mais ambicionava. Na cama nunca entrou, mas rapidamente conseguiu o seu propósito. Qualquer altura era oportuna, qualquer sítio era o indicado: antes do pequeno-almoço, ou depois da sesta, no jardim, no sótão, atrás de uma porta e até mesmo na cozinha. As mãos do Engenheiro Angélico nunca lhe percorreram o corpo, nem tão pouco os seus lábios tocaram a sua pele ou a sua boca. Joana não se importava, pois o que no início se lhe apresentou como uma aventura, rapidamente se transformou num objetivo concreto: tornar-se a Senhora Almeida Brandão! Isto viria a revelar-se fatal.