Capítulo I
8/8/2018
Esta manhã acordei plena de certezas. A vida é tudo aquilo que eu quiser e fizer dela. Lugar-comum? Talvez sim, mas não seremos todos nós responsáveis pela existência de lugares-comuns?
Se a frase anterior vos soa a “mais do mesmo”, não continuem a ler. O que vos apresento não é inédito. É uma história dotada de verdade, que de tão verdadeira, é como a minha vida ou a vossa: invariavelmente desconcertante.
Bruna tem uma dessas histórias. Sem luxos ou glamour, caminha pela vida como se não houvesse ontem. Sim, não quis dizer como se não houvesse amanhã, mas sim como se não houvesse ontem. Uma forma estranha de ser, segundo alguns, mas para ela a única que lhe possibilita carregar a jornada que se lhe apresenta diariamente sem desejar matar ou ser morta.
Lisboa ouviu o primeiro choro de Bruna há praticamente quarenta e oito anos. Os mesmos anos passaram desde que perdeu o seu pai. Ela nascia e o pai perdia a vida na cama de uma qualquer prostituta, num bordel dos subúrbios.
A relação dos pais tinha muito pouco daquilo que seria de esperar de um casamento. Casaram com a vontade de encobrir uma gravidez que afinal não deu fruto. Diz-se que Clarisse, mãe de Bruna, tentou o “golpe da barriga” e que tudo não passou de uma mentira engendrada para arranjar um marido, mas Jacinto sabe bem que naquela tarde de maio, depois de pontapear a mulher no chão da cozinha, ela se esvaiu em sangue perante os seus olhos, sem que nada pudesse ter feito para evitar a morte do próprio filho. Jurou que, mesmo que ela o provocasse, nunca mais lhe tocaria, que a amava e que não tornaria a levantar-lhe um dedo. Não foi assim.
Bruna não conheceu o pai – talvez o maior golpe de sorte da sua vida – mas a sua mãe, que até então tinha sido uma mulher submissa, quando enviuvou revelou-se uma mulher autoritária, fria, cínica e manipuladora. Bruna nunca sabia muito bem como a encontraria ao chegar a casa e isso fazia-a estremecer quando subia os três degraus da entrada do prédio. Nada de discussões ou gritarias, mas nos dias menos bons, a mãe não lhe dirigia a palavra nem a olhava e o silêncio era tão grande e pesado, que parecia que o teto iria cair a qualquer momento.
O clima de falsa segurança não se sentia apenas em casa de Bruna. Esse medo de dizer, de fazer e até mesmo de pensar, muito embora sempre mascarado pela boa educação, cavalheirismo e alguns sorrisos cínicos, era típico do que se encontrava pelas ruas. Decorria o ano de 1970, e o sistema político impunha as suas ideologias e crenças, demonstrando a sua força, à força. O furor de quem não tem argumentos robustos o suficiente para falar devagar, causou a dor a tantos que se queriam fazer ouvir. Mas seriamos nós os mesmos, se outros não tivessem sofrido? Bruna sofreu… sofreu horrores.
Jerónimo sempre fora amigo da família e a sua compaixão por Clarisse tornar-se-ia paixão quando esta enviuvou. Clarisse, porém, não queria saber de homens. Como ela própria dizia, “não havia realmente um futuro promissor numa relação a dois”. Porque motivo colocar-se-ia novamente numa posição onde se visse na obrigação de coser mais um par de peúgas, de engomar punhos e colarinhos ou de se sentir apressada para ter o jantar pronto a horas? Perante esta possibilidade, deparava-se Clarisse com um caminho cheio de medo, incerteza e maus tratos. a extraordinária memória, da qual tanto se orgulhava, não lhe permitia esquecer: nos dias bons, não existia tareia, mas sexo, que por mau que fosse, pelo menos não deixava nódoas negras e acabava muito mais rapidamente. Tão depressa começava como já se estava a lavar no seu bidé de esmalte, com sabão azul e branco, esfregando a vagina desenfreadamente, ao ponto de se ferir, tal era a ânsia de tirar aquele homem de dentro de si. No dia seguinte ele levantava-se bem-disposto e isso por si só, valia o sacrifício.

