Bruna, menina de outra geração, mulher de outros tempos, não viveu na primeira pessoa este tipo de realidade, mas sentiu profundamente na pele o que a amargura de uma relação isenta de amor e plena de cólera faz a um coração. Aprendeu-o através da educação que a mãe lhe dera e do afeto que lhe fez faltar. Sendo órfã de pai, pareceria aos olhos dos outros um alvo fácil, então a mãe, almejando-a forte, amestrou-a incutindo-lhe que era fundamental atacar para não ser atacada.
Jerónimo não lidava bem com tanta angústia e levava Bruna a passear ao Jardim Botânico e ao cinema. Contava-lhe histórias de encantar com príncipes e princesas de verdade e tentava mostrar a Bruna o lado cor-de-rosa da vida, para que ela conseguisse manter aquela ingenuidade que se quer numa criança durante o maior tempo possível. Jerónimo era um homem de convicções e valores enraizados e era comum ouvi-lo afirmar com toda a certeza que, se todas as crianças do mundo tivessem tempo para serem felizes o mundo seria melhor quando estes meninos e meninas se tornassem homens e mulheres. Acreditava tão genuinamente nisto que, mesmo sem se dar conta, agia em conformidade e tinha o dom de espalhar alegria a tudo e a todos à sua volta… nas mais pequenas coisas que no fundo são provavelmente as maiores e mais importantes. Na sua companhia Bruna sentia-se numa realidade paralela. Ele nunca se cansava de a mimar, e simultaneamente, de a entusiasmar com e para a vida. O melhor de Jerónimo sempre foi o facto de, não pretendendo evitar que a sua pequena amiga crescesse, tudo fazer para que ela fosse criança enquanto era tempo disso. Dava-lhe a conhecer o que entendia ser o melhor da vida: a travessia do tejo, os pasteis de Belém, os museus, as igrejas e os jardins. Chegou mesmo a levá-la ao teatro para ver uma peça infantil. Este momento foi revelador pois veio mudar a sua forma de ver o mundo: a partir daquele dia, aquela menina tornou-se mulher pois decidiu o que queria fazer e ser até deixar de existir. As tardes de verão de Bruna eram quase sempre passadas assim, a passear ou a brincar com Jerónimo, o seu grande e verdadeiro amigo. Verdade seja dita, ele começou por agradar à miúda para cativar a mãe, mas depressa se deixou encantar por aquela menina morena de cabelo escorrido, de pele e olhos escuros e com perninhas que faziam lembrar um gafanhoto. Era uma criança fisicamente igual a tantas outras, mas tinha um brilho qualquer que a fazia parecer uma rainha, mesmo que estivesse toda suja de terra ou com gelado nos queixos a pingar nos joelhos. A mãe também lhe reconhecia esse brilho, mas esta consciência só fazia com que a achasse ainda mais suscetível aos perigos da vida.
Bruna foi para a escola e sua a adaptação foi realmente simples. Ela era enérgica e a sua rebeldia e vivacidade atraía os outros como um íman. Nasceu líder, não precisava de tentar convencer ninguém a absolutamente nada. Todos queriam ser seus amigos e existia sempre uma espera coletiva de uma ordem muda da “chefe”, o que causava algum desconforto na sala de aula. Ela era quem dava o tom quando se cantava uma música e, na hora do recreio, os colegas só saiam depois dela. Da mesma forma era ela a primeira a entrar. Dona Amélia, a Senhora Professora, sentia-se intimidada e quase insultada com tamanha insolência, mas como não existia nada concreto do que se queixar, nunca chamou Clarisse para uma conversa a sós. O que lhe diria? Que a sua filha era charmosa e que todos gostavam dela? Ou então, que era das melhores alunas, esperta e sempre com a resposta na ponta da língua? Convenceu-se que era mais uma aluna e que quanto mais importância desse à catraia, mais importante ela se sentiria. No entanto, não gostava de estar sozinha com Bruna na sala de aula. Sentia arrepios.
Aos doze anos Bruna foi traída pela vida – pelo menos foi assim que se sentiu – Jerónimo morreu levando com ele a ingenuidade desta menina que até então nunca tinha sentido uma dor tão visceral. Era feliz e acreditava puramente que tudo na vida dependia dela e da sua vontade. Perdeu a inocência. E uma vez perdida…
Chorou até não conseguir respirar. Clarisse não lhe passou a mão pela cabeça. Disse-lhe apenas que o mau bocado que estava a passar era isso mesmo, passageiro, e que acabaria por ser proveitoso pois não havia nada mais importante para qualquer ser humano que saber como realmente é a vida. Bruna revoltou-se com Jerónimo. Ele levou-a a acreditar na magia e no poder da vida, mas com a sua morte como seria realmente o seu destino: nada de cor-de-rosa, só cinzas espalhadas nos sonhos a dissiparem os desejos de um futuro feliz? Não, não seria assim. Bruna desenharia todo o seu percurso nesta vida, escreveria minuciosamente o guião da história em que seria a protagonista e não permitiria a ninguém acrescentar uma vírgula que fosse.
Quis despedir-se do seu melhor, maior e grande, grande amigo. Não aceitou um não como resposta. A mãe gostou da sua firmeza e desafiou-a mais um pouco para a espevitar. Fazia isso constantemente: espicaçava-a para a fortalecer, contrariava-a para a encorajar, desprezava-a para a educar. Deixou-a ir ao velório e à missa, mas não ao enterro. Não, o enterro é um momento demasiado intenso e dramático. A mãe dissera-lhe assim para lhe aguçar o apetite. Sabia que Bruna não gostava de ser contrariada e no fundo desejava que a filha testemunhasse aquele momento sinistro. Isso iria abaná-la e magoá-la o suficiente para o seu ainda frágil coração endurecer. Assim, proibiu-a de estar presente, para levar Bruna a fazer precisamente o oposto do que lhe tinha sido ordenado. Manipulação? Clarisse terá sido a mais sofrida, mas também a mais manipuladora das pessoas que fizeram parte da vida de Bruna. E mais uma vez ganhou. Bruna disse à mãe que a esperaria numa pastelaria perto do cemitério. É claro que não o fez. Como uma invasora, empoleirou-se no muro e saltou para dentro daquele espaço sagrado. Não se magoou, apenas rasgou as meias de seda. Pensar na justificação que teria de apresentar em casa causou-lhe um aperto no estômago. Depois pensaria numa desculpa, agora só queria descobrir onde estariam a depositar o corpo do seu Jerónimo. E descobriu! Ficou a ver de longe. Reparou que o padre falava, falava, falava e enquanto falava dizia muitas coisas conseguindo nada dizer… não existia qualquer relação entre as palavras proferidas e o homem que conhecera. Deu por si a supor sobre o que o seu falecido companheiro gostaria de ter como festa de despedida. Tremeu por dentro. Se a sua mãe imaginasse que ela comparara, mesmo que apenas e só em pensamento, uma cerimónia fúnebre com uma festa, ainda que de despedida, ficaria de castigo para o resto da vida. A ideia da punição não foi suficiente para a demover, e assim, não conseguindo conter a vontade regada pela sua essência criativa, deu largas à imaginação recriando um cenário com palco e tudo, onde o caixão subiria em vez de descer, onde estaria um maestro a dirigir a sua orquestra em vez de um padre a falar, onde as pessoas bateriam palmas em vez de chorar, onde todos se vestiriam com rendas, folhos e cores berrantes em vez do óbvio preto. A realidade fez-se notar e acordou-a quando as pessoas começaram a chorar compulsivamente e a berrar, cada uma mais alto do que a outra, como se de um concurso se tratasse para avaliar quem sofria mais e melhor. Bruna já tinha chorado tudo, porém, quando o caixão iniciou o seu trajeto natural e evidente, julgou não suportar tanta dor, e saudade, e angústia, e medo, e solidão, e raiva, e deixou-se cair. Sentada no chão, lidava como podia com todos os momentos daquele momento. Nunca irá esquecer a descida do corpo à terra. Ali ficou ele, o seu querido amigo. Nunca mais o iria ver, nem ele a ela. E o que mais lhe doía, era saber que ele nunca mais iria cheirar o ar fresco junto ao rio, nem comer as tostas mistas, sempre com muita manteiga, nem ler o jornal demoradamente enquanto o engraxador lhe polia os sempre impecáveis sapatos azuis escuros, nem brincar com os cães vadios e sarnentos da rua, que enojavam toda a gente, nem fumar o seu cigarro e beber o café depois, nem rir, nem chorar, nem ir… só ficar ali, enterrado, naquele sitio frio e húmido, tão só, e tão escuro, tão vazio de vida.
