Bruna… Mulher da vida – Capítulo II

Bruna, menina de outra geração, mulher de outros tempos, não viveu na primeira pessoa este tipo de realidade, mas sentiu profundamente na pele o que a amargura de uma relação isenta de amor e plena de cólera faz a um coração. Aprendeu-o através da educação que a mãe lhe dera e do afeto que lhe fez faltar. Sendo órfã de pai, pareceria aos olhos dos outros um alvo fácil, então a mãe, almejando-a forte, amestrou-a incutindo-lhe que era fundamental atacar para não ser atacada. 

Jerónimo não lidava bem com tanta angústia e levava Bruna a passear ao Jardim Botânico e ao cinema. Contava-lhe histórias de encantar com príncipes e princesas de verdade e tentava mostrar a Bruna o lado cor-de-rosa da vida, para que ela conseguisse manter aquela ingenuidade que se quer numa criança durante o maior tempo possível. Jerónimo era um homem de convicções e valores enraizados e era comum ouvi-lo afirmar com toda a certeza que, se todas as crianças do mundo tivessem tempo para serem felizes o mundo seria melhor quando estes meninos e meninas se tornassem homens e mulheres. Acreditava tão genuinamente nisto que, mesmo sem se dar conta, agia em conformidade e tinha o dom de espalhar alegria a tudo e a todos à sua volta… nas mais pequenas coisas que no fundo são provavelmente as maiores e mais importantes. Na sua companhia Bruna sentia-se numa realidade paralela. Ele nunca se cansava de a mimar, e simultaneamente, de a entusiasmar com e para a vida. O melhor de Jerónimo sempre foi o facto de, não pretendendo evitar que a sua pequena amiga crescesse, tudo fazer para que ela fosse criança enquanto era tempo disso. Dava-lhe a conhecer o que entendia ser o melhor da vida: a travessia do tejo, os pasteis de Belém, os museus, as igrejas e os jardins.  Chegou mesmo a levá-la ao teatro para ver uma peça infantil. Este momento foi revelador pois veio mudar a sua forma de ver o mundo: a partir daquele dia, aquela menina tornou-se mulher pois decidiu o que queria fazer e ser até deixar de existir. As tardes de verão de Bruna eram quase sempre passadas assim, a passear ou a brincar com Jerónimo, o seu grande e verdadeiro amigo. Verdade seja dita, ele começou por agradar à miúda para cativar a mãe, mas depressa se deixou encantar por aquela menina morena de cabelo escorrido, de pele e olhos escuros e com perninhas que faziam lembrar um gafanhoto. Era uma criança fisicamente igual a tantas outras, mas tinha um brilho qualquer que a fazia parecer uma rainha, mesmo que estivesse toda suja de terra ou com gelado nos queixos a pingar nos joelhos. A mãe também lhe reconhecia esse brilho, mas esta consciência só fazia com que a achasse ainda mais suscetível aos perigos da vida.

Bruna foi para a escola e sua a adaptação foi realmente simples. Ela era enérgica e a sua rebeldia e vivacidade atraía os outros como um íman. Nasceu líder, não precisava de tentar convencer ninguém a absolutamente nada. Todos queriam ser seus amigos e existia sempre uma espera coletiva de uma ordem muda da “chefe”, o que causava algum desconforto na sala de aula. Ela era quem dava o tom quando se cantava uma música e, na hora do recreio, os colegas só saiam depois dela. Da mesma forma era ela a primeira a entrar. Dona Amélia, a Senhora Professora, sentia-se intimidada e quase insultada com tamanha insolência, mas como não existia nada concreto do que se queixar, nunca chamou Clarisse para uma conversa a sós. O que lhe diria? Que a sua filha era charmosa e que todos gostavam dela? Ou então, que era das melhores alunas, esperta e sempre com a resposta na ponta da língua? Convenceu-se que era mais uma aluna e que quanto mais importância desse à catraia, mais importante ela se sentiria. No entanto, não gostava de estar sozinha com Bruna na sala de aula. Sentia arrepios.

Aos doze anos Bruna foi traída pela vida – pelo menos foi assim que se sentiu – Jerónimo morreu levando com ele a ingenuidade desta menina que até então nunca tinha sentido uma dor tão visceral. Era feliz e acreditava puramente que tudo na vida dependia dela e da sua vontade. Perdeu a inocência. E uma vez perdida…

Chorou até não conseguir respirar. Clarisse não lhe passou a mão pela cabeça. Disse-lhe apenas que o mau bocado que estava a passar era isso mesmo, passageiro, e que acabaria por ser proveitoso pois não havia nada mais importante para qualquer ser humano que saber como realmente é a vida. Bruna revoltou-se com Jerónimo. Ele levou-a a acreditar na magia e no poder da vida, mas com a sua morte como seria realmente o seu destino: nada de cor-de-rosa, só cinzas espalhadas nos sonhos a dissiparem os desejos de um futuro feliz? Não, não seria assim. Bruna desenharia todo o seu percurso nesta vida, escreveria minuciosamente o guião da história em que seria a protagonista e não permitiria a ninguém acrescentar uma vírgula que fosse.

Quis despedir-se do seu melhor, maior e grande, grande amigo. Não aceitou um não como resposta. A mãe gostou da sua firmeza e desafiou-a mais um pouco para a espevitar. Fazia isso constantemente: espicaçava-a para a fortalecer, contrariava-a para a encorajar, desprezava-a para a educar. Deixou-a ir ao velório e à missa, mas não ao enterro. Não, o enterro é um momento demasiado intenso e dramático. A mãe dissera-lhe assim para lhe aguçar o apetite. Sabia que Bruna não gostava de ser contrariada e no fundo desejava que a filha testemunhasse aquele momento sinistro. Isso iria abaná-la e magoá-la o suficiente para o seu ainda frágil coração endurecer. Assim, proibiu-a de estar presente, para levar Bruna a fazer precisamente o oposto do que lhe tinha sido ordenado. Manipulação? Clarisse terá sido a mais sofrida, mas também a mais manipuladora das pessoas que fizeram parte da vida de Bruna. E mais uma vez ganhou. Bruna disse à mãe que a esperaria numa pastelaria perto do cemitério. É claro que não o fez. Como uma invasora, empoleirou-se no muro e saltou para dentro daquele espaço sagrado. Não se magoou, apenas rasgou as meias de seda. Pensar na justificação que teria de apresentar em casa causou-lhe um aperto no estômago. Depois pensaria numa desculpa, agora só queria descobrir onde estariam a depositar o corpo do seu Jerónimo. E descobriu! Ficou a ver de longe. Reparou que o padre falava, falava, falava e enquanto falava dizia muitas coisas conseguindo nada dizer… não existia qualquer relação entre as palavras proferidas e o homem que conhecera. Deu por si a supor sobre o que o seu falecido companheiro gostaria de ter como festa de despedida. Tremeu por dentro. Se a sua mãe imaginasse que ela comparara, mesmo que apenas e só em pensamento, uma cerimónia fúnebre com uma festa, ainda que de despedida, ficaria de castigo para o resto da vida. A ideia da punição não foi suficiente para a demover, e assim, não conseguindo conter a vontade regada pela sua essência criativa, deu largas à imaginação recriando um cenário com palco e tudo, onde o caixão subiria em vez de descer, onde estaria um maestro a dirigir a sua orquestra em vez de um padre a falar, onde as pessoas bateriam palmas em vez de chorar, onde todos se vestiriam com rendas, folhos e cores berrantes em vez do óbvio preto. A realidade fez-se notar e acordou-a quando as pessoas começaram a chorar compulsivamente e a berrar, cada uma mais alto do que a outra, como se de um concurso se tratasse para avaliar quem sofria mais e melhor. Bruna já tinha chorado tudo, porém, quando o caixão iniciou o seu trajeto natural e evidente, julgou não suportar tanta dor, e saudade, e angústia, e medo, e solidão, e raiva, e deixou-se cair. Sentada no chão, lidava como podia com todos os momentos daquele momento. Nunca irá esquecer a descida do corpo à terra. Ali ficou ele, o seu querido amigo. Nunca mais o iria ver, nem ele a ela. E o que mais lhe doía, era saber que ele nunca mais iria cheirar o ar fresco junto ao rio, nem comer as tostas mistas, sempre com muita manteiga, nem ler o jornal demoradamente enquanto o engraxador lhe polia os sempre impecáveis sapatos azuis escuros, nem brincar com os cães vadios e sarnentos da rua, que enojavam toda a gente, nem fumar o seu cigarro e beber o café depois, nem rir, nem chorar, nem ir… só ficar ali, enterrado, naquele sitio frio e húmido, tão só, e tão escuro, tão vazio de vida.

Bruna… Mulher da vida – Capítulo I

Bruna

Capítulo I

8/8/2018            

Esta manhã acordei plena de certezas. A vida é tudo aquilo que eu quiser e fizer dela. Lugar-comum? Talvez sim, mas não seremos todos nós responsáveis pela existência de lugares-comuns?

Se a frase anterior vos soa a “mais do mesmo”, não continuem a ler. O que vos apresento não é inédito. É uma história dotada de verdade, que de tão verdadeira, é como a minha vida ou a vossa: invariavelmente desconcertante.

Bruna tem uma dessas histórias. Sem luxos ou glamour, caminha pela vida como se não houvesse ontem. Sim, não quis dizer como se não houvesse amanhã, mas sim como se não houvesse ontem. Uma forma estranha de ser, segundo alguns, mas para ela a única que lhe possibilita carregar a jornada que se lhe apresenta diariamente sem desejar matar ou ser morta.

Lisboa ouviu o primeiro choro de Bruna há praticamente quarenta e oito anos. Os mesmos anos passaram desde que perdeu o seu pai. Ela nascia e o pai perdia a vida na cama de uma qualquer prostituta, num bordel dos subúrbios.

A relação dos pais tinha muito pouco daquilo que seria de esperar de um casamento. Casaram com a vontade de encobrir uma gravidez que afinal não deu fruto. Diz-se que Clarisse, mãe de Bruna, tentou o “golpe da barriga” e que tudo não passou de uma mentira engendrada para arranjar um marido, mas Jacinto sabe bem que naquela tarde de maio, depois de pontapear a mulher no chão da cozinha, ela se esvaiu em sangue perante os seus olhos, sem que nada pudesse ter feito para evitar a morte do próprio filho. Jurou que, mesmo que ela o provocasse, nunca mais lhe tocaria, que a amava e que não tornaria a levantar-lhe um dedo. Não foi assim.

Bruna não conheceu o pai – talvez o maior golpe de sorte da sua vida – mas a sua mãe, que até então tinha sido uma mulher submissa, quando enviuvou revelou-se uma mulher autoritária, fria, cínica e manipuladora. Bruna nunca sabia muito bem como a encontraria ao chegar a casa e isso fazia-a estremecer quando subia os três degraus da entrada do prédio. Nada de discussões ou gritarias, mas nos dias menos bons, a mãe não lhe dirigia a palavra nem a olhava e o silêncio era tão grande e pesado, que parecia que o teto iria cair a qualquer momento.  

O clima de falsa segurança não se sentia apenas em casa de Bruna. Esse medo de dizer, de fazer e até mesmo de pensar, muito embora sempre mascarado pela boa educação, cavalheirismo e alguns sorrisos cínicos, era típico do que se encontrava pelas ruas. Decorria o ano de 1970, e o sistema político impunha as suas ideologias e crenças, demonstrando a sua força, à força. O furor de quem não tem argumentos robustos o suficiente para falar devagar, causou a dor a tantos que se queriam fazer ouvir. Mas seriamos nós os mesmos, se outros não tivessem sofrido? Bruna sofreu… sofreu horrores.

Jerónimo sempre fora amigo da família e a sua compaixão por Clarisse tornar-se-ia paixão quando esta enviuvou. Clarisse, porém, não queria saber de homens. Como ela própria dizia, “não havia realmente um futuro promissor numa relação a dois”. Porque motivo colocar-se-ia novamente numa posição onde se visse na obrigação de coser mais um par de peúgas, de engomar punhos e colarinhos ou de se sentir apressada para ter o jantar pronto a horas? Perante esta possibilidade, deparava-se Clarisse com um caminho cheio de medo, incerteza e maus tratos. a extraordinária memória, da qual tanto se orgulhava, não lhe permitia esquecer: nos dias bons, não existia tareia, mas sexo, que por mau que fosse, pelo menos não deixava nódoas negras e acabava muito mais rapidamente. Tão depressa começava como já se estava a lavar no seu bidé de esmalte, com sabão azul e branco, esfregando a vagina desenfreadamente, ao ponto de se ferir, tal era a ânsia de tirar aquele homem de dentro de si. No dia seguinte ele levantava-se bem-disposto e isso por si só, valia o sacrifício.